Carta ao Professor Joaquim Pinto Machado

21 Março 2011

Foi com muita tristeza que ontem, 14-03-2011, recebi esta notícia: “O Professor Pinto Machado faleceu”. Tristeza, porque há pessoas que deixam um marco importante no mundo, o tornam realmente melhor… de tal forma que parece sempre precoce perdê-las, mesmo aos 81 anos.

Joaquim Germano Pinto Machado Correia da Silva nasceu e morreu no Porto, cidade que tanto amava e onde se formou em Medicina. Foi Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), membro da primeira Comissão Instaladora e Director do Curso de Medicina da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho (UM). Paralelamente à sua actividade científica e académica ocupou também cargos políticos de relevo, tendo sido deputado na Assembleia da República, Secretário de Estado do Ensino Superior (1984-1985) e Governador de Macau (1986-1987).

Sem dúvida que todos os que com ele conviveram lhe destacam as inúmeras capacidades como Médico, Professor Universitário e Cidadão… Na sua excepcional dedicação ao trabalho contribuiu para a evolução do ensino médico em Portugal… Na sua capacidade de intervenção pública e política lutou pela defesa dos valores da justiça e da liberdade. O Professor Pinto Machado foi mesmo um médico com M grande e um homem com H grande porque, tal como muitas vezes dizia… “Nada do que é humano é estranho ao médico”!

Foi um privilégio aprender com ele… a sua SABEDORIA em paralelo com a sua SIMPLICIDADE… com o Professor Pinto Machado não se aprendiam apenas “cadeiras” de curso, mas muitas lições de vida e para a vida. “Sejam como águias, voem alto, e não como avestruzes, que escondem a cabeça na terra”, dizia. Ouvi-lo falar não deixava ninguém indiferente. Tocava bem fundo… Fazia-nos reflectir. Foi, acima de tudo, um grande HUMANISTA. Para ele o doente não era mais um na cama tal, com a doença tal mas, acima de tudo, uma pessoa. “O doente como pessoa está em vias de desaparecer”.

Sempre sorridente, atencioso para com as pessoas, dotado de uma vastíssima cultura, mas capaz de transmitir conhecimentos complexos numa linguagem próxima. Sem vaidades, sem ostentação. Inovador e empreendedor. Introduziu no curso de Medicina da UM uma vertente holística do doente… as sessões de “Manta de Retalhos”, os “Domínios Verticais”, as entrevistas… Dra Luisa da Costa, Prof. Rui Mota Cardoso, Prof. Daniel Serrão, Prof. Chaínho Pereira, Prof. Levi Guerra, Prof. Sérgio Machado dos Santos, Dr. António Vitorino, Dr. Jorge Sampaio em “Uma pessoa confessa-se”… tantas actividades onde se empenhava com toda a motivação sempre tendo em vista formar médicos, cientificamente preparados, mas conscientemente compassivos. “Tive a grande satisfação de falar na grandeza humana da profissão de cuidador de doentes (…)” escreveu no nosso Livro de Finalistas (curso 2003-2009). Obrigada, Mestre, pela obra que nos deixou!

Espero que todos continuemos a sentir o “pulsar da vida” e a seguir o seu exemplo.

Isabel Silva, médica e antiga aluna.

P.S. Mais do que uma sociedade economicamente “à rasca”, assiste-se a uma sociedade em crise de valores… Tanta tecnologia e tão pouco humanismo! Tal como escreveu o Professor Pinto Machado “Se cada um cumprisse o seu dever, ficariam garantidos os direitos de todos”… Num país à beira da depressão colectiva fazem falta muitos mais Pintos Machados!