Haja Alumni: Óscar de Barros

10 Dezembro 2019

É médico de família, mas faz maratonas entre os concertos, as consultas e casa. O antigo aluno da Escola de Medicina continua a dar relevo ao apoio dado na sua perseguição às artes.

Os “médicos de família”, como são popularmente apelidados, têm uma maior responsabilidade no contacto com as pessoas, principalmente pela proximidade com a população. Como é que isso se reflete no trabalho diário?

Os médicos de família são sem dúvida alguma, aqueles que acarretam maior responsabilidade junto da população. Os cuidados primários são a porta de entrada do SNS, são aqueles que estão próximos e que acompanham a família e sua evolução ao longo dos anos. Esta responsabilidade reflete-se de várias formas no dia-a-dia. É um “pau de dois bicos”. Por um lado, coloca-nos um peso enorme nas costas pela confiança que a população nos deposita, temos de estar quase sempre disponíveis para os mais diversos problemas bem como alerta para a prevenção dos nossos utentes (a nossa “jóia da coroa”) e articulação com os cuidados secundários de forma atempada. Por outro lado, o envelhecimento da população, a crise social e financeira, o aumento da dimensão das listas de utentes, os mais diversos problemas informáticos e de logística, a falta de médicos de família, a não cobertura total da população e as exigências daí derivadas, não nos permitem usufruir da profissão a tempo inteiro. Temos cada vez menos tempo e disponibilidade mental para conseguir gerir a saúde e a doença dos nossos utentes, e das famílias que depositam em nós grandes expectativas. Não é fácil estar sempre disponível, ter a lista de utentes e seus problemas sempre prontos a serem chamados à memória para uma conversa rápida de corredor (um clássico, “Doutor, já agora, não sei se se lembra…”). Todos os trabalhos têm pros e contras, mas considero-me um privilegiado por poder servir uma população que me faz sentir realizado, útil, na qual faço realmente a diferença. A prioridade é o utente, é para o utente que estamos a trabalhar. Educar, prevenir, tratar, cuidar, escutar, aconselhar, ou apenas estar presente são apenas algumas das características que tornam a Medicina Geral e Familiar tão única.

 

Quais são os principais problemas enfrentados enquanto MGF?

Sem dúvida a exigência que é cada vez maior, quer pela população, quer pelas Administrações. Essa exigência deriva do envelhecimento da população, das suas necessidades em saúde que são cada vez maiores, do aumento das listas de utentes, da falta de recursos médicos, humanos, físicos, informáticos, e da necessidade de redução de custos e otimização de recursos que nem sempre são os melhores. Uma nota importante é a cada vez maior desinformação em saúde que é disseminada pelas Internet e pelos Media. Acredito que o combate à desinformação será um papel cada vez mais presente no dia-a-dia do Médico de Família.

 

MGF não é a especialidade mais falada nas escolhas dos alunos. O que te fez optar por esta área?

Inicialmente era minha intenção seguir pneumologia ou psiquiatria. Ao longo dos anos clínicos, embora não tivesse perdido o interesse, fiquei cada vez mais confuso. Com a passagem pelos Centros de Saúde, o gosto pela Medicina Geral e Familiar foi crescendo. Fascinava-me o privilégio de saber de tudo um pouco, orientar, prevenir, educar e principalmente seguir a família como um todo ao longo da sua existência, ser o confidente, a pedra basilar da sua saúde. Na altura da escolha da especialidade, ainda pensei em Imunoalergologia, mas a necessidade de olhar para a família na sua globalidade, em todas as suas dimensões esclareceu-me rapidamente.

 

Que papel teve a Escola de Medicina na tua formação profissional e humana?

O meu primeiro dia na antiga Escola de Ciências da Saúde foi particular, não o vou esquecer. Começou com um “sejam bem-vindos”, em que simultaneamente ouvíamos o Aleluia de Haendel (da obra Messiah), passou por um “lembrem-se que o vosso trabalho é extremamente importante, mas nunca serão mais que os outros profissionais, somos todos iguais e com um objetivo”. E um belíssimo discurso do Prof Pinto Machado. A minha passagem pela agora Escola de Medicina, não foi propriamente fácil. Nos primeiros anos, os anos das ciências básicas, tive uma série de contratempos, alguns deles de saúde, que me dificultaram a vida, chumbei 3 anos. A escola era pequena, com poucos alunos, e todos se conheciam. Isso permitiu mais proximidade entre os colegas e a própria instituição, e permitiu-me longas conversas com alguns professores, por estarem preocupados com a minha situação e queriam ajudar. O Professor Pinto Machado, o Professor Nuno Sousa, o Professor Armando Almeida, a Professora Filipa, a Professora Leonor… entre outros, muito contribuíram para a minha manutenção no curso, pois estive para desistir umas 2 vezes. Muito lhes devo, nunca me irei esquecer deles. Rapidamente percebi que a escola realmente tinha uma componente humana muito significativa, e isso abriu-me os olhos. Pontos negativos existem em todas as escolas, e quem está numa posição decisora ou de chefia numa instituição destas, fica sempre mais exposto a criticas. Fui aluno, fui colega, fui amigo, fui do marketing do NEMUM, fui da coordenação da semana cultural, fui da praxe, fui do estudo e dos canecos, fui da música clássica e da musica tradicional, fui do ténis de mesa da AAUM, fui namorado (o curso deu-me uma esposa magnífica, uma verdadeira cara metade), fui muita coisa… fui uma criança e cresci.

A escola abraçou-me e ensinou-me, o que mais retive foi sem dúvida a importância da componente humana do médico no seu dia-a-dia, sem esquecer que estamos a trabalhar para o doente, e ter sempre presente a multidimensionalidade do ser humano. A Escola de Medicina ensinou-me a não desistir, a não baixar os braços, a lutar por aquilo que quero, a não esquecer o que nos faz felizes. No final do curso seria impossível não ir para Medicina Geral e Familiar dada a proximidade ao utente e dado o seu caracter humano. Dou particular enfoque à exigência das aulas e das avaliações (odiava a exigência que nos era exigida diariamente, agora que trabalho, agradeço todos os dias a formação e preparação que tive), à responsabilidade que nos era incutida, aos domínios verticais e à semana cultural Professor Pinto Machado, e à partilha que nos era permitida. Pude aprender, estudar, partilhar, evoluir noutras áreas, nomeadamente culturais, voltei a estudar algo que estava adormecido, a minha música, e foi por insistência dos colegas e professores, particularmente do Professor Nuno Sousa e do meu colega de casa, meu caro amigo Dr Isaac Braga.

Queria só deixar uma nota breve antes de me despedir. O conceito que o Professor Pinto Machado idealizou para esta escola, muito antes da mesma existir, foi algo de genial e inovador. Por isso tivemos tantas críticas ao nosso modelo de ensino. Agora estamos a colher resultados. Que me desculpem os outros estabelecimentos de ensino… somos especiais. E o modelo?… Pá, Resulta!

 

Texto publicado originalmente na edição n.º 5 do HajaSaúde.