Haja Alumni: João Braga Simões

25 Maio 2020

A ciência não está a ser afetada pelos movimentos contrários à evidência. Mas afeta as perceções do público acerca da medicina, explica João Braga Simões, formado na Escola de Medicina da Universidade do Minho.

A medicina e a ciência estão a ser afetadas pela desinformação e pelos movimentos anti-ciência?

A pergunta tem duas perspetivas interessantes. Eu diria que a medicina como ciência, e a própria ciência, não são afetados pelos movimentos anti-ciência, na medida em que, o conhecimento produzido continua a respeitar os cânones do método científico, a dúvida metódica, a observação sistemática e controlada, a verificabilidade e reprodutibilidade, a revisão por pares, enfim, todo um sistema de checks and balances construído de forma a que o conhecimento gerado possa ser considerado sólido, mas não dogmático. Posto isto, não acho que a ciência seja afetada pelos movimentos anti-ciência.

A ciência e a medicina estão, como sempre estiveram, disponíveis para o contraditório, para serem postas em causa, para serem questionadas. Este é, aliás o motor do desenvolvimento científico. E a falibilidade da ciência é uma condição à partida, reconhecida por todos os que fazem ciência, mas, aparentemente, não suficientemente enfatizada naqueles que recebem os frutos apanhados, descascados e descaroçados da ciência.

O outro lado desta questão, muito mais sensível, é a forma como os movimentos anti-ciência afetam a forma como o público geral vê e apreende a ciência. Nesse caso, claramente, sim, a desinformação e os movimentos anti-ciência estão a abrir brechas de confiança. O que nos traz ao mundo atual, em que vivemos no período da História em que a ciência e o conhecimento são mais escrutinados e mais acessíveis, mas, também, um tempo em que mais conhecimento duvidoso é produzido e rapidamente disseminado. Eu diria que quase que assistimos ao paradoxo do Iluminismo, chegamos a um momento da História em que mais informação não produz mais conhecimento. O desafio é enorme. O argumento de autoridade não basta para veicular uma informação científica ou uma recomendação médica, como era no passado.

A contaminação do público geral com desinformação é tal que os médicos e cientistas têm que estar preparados e munidos de um argumentário consistente, estruturado e, acima de tudo, bem comunicado, para desconstruir mitos.

 

Como se reage a estes movimentos, numa sociedade em que a literacia em saúde atinge níveis reduzidos (apelidados pela DGS “problemático” ou “inadequado”) em metade da população – 60% em grupos vulneráveis?

Antes de mais, temos de conseguir descrever quem são as pessoas suscetíveis de embarcar em argumentos pseudocientíficos. Pegando no exemplo dos anti-vaxxers (pessoas que acreditam que a vacina do sarampo provoca autismo, ou que as vacinas fazem parte de uma estratégia obscura de inoculação de doenças à escala global, para enriquecer a indústria farmacêutica), são os menos instruídos, de meia-idade, de territórios suburbanos e rurais? Ou são aqueles de nível socioeconómico mais elevado, mais instruídos, pais jovens e com filhos a estudar em colégios privados? Ou é algo transversal e pervasivo, que afeta toda a sociedade. Depois de descritas e identificadas, temos de perceber as razões que levam as pessoas a acreditar na desinformação, se é uma desconfiança endémica no sistema, se é fruto de uma propaganda concertada, se é uma questão de falta de instrução e literacia, ou se é um fenómeno de comunidades específicas, de crenças, de vulnerabilidade a fake news. Temos de perceber o contributo que a internet e as redes sociais têm nestes fenómenos. E, acima de tudo, não podemos virar a cara a luta. Não podemos mais ignorar quando detetamos um discurso anti-ciência. Devemos interpelar, expor os argumentos do raciocínio científico. Com urbanidade, sem extremar posições, sem discursos emocionais, mas contrapor, quebrar o ciclo de desinformação.

Um dos problemas da sociedade de informação é que é possível encontrar alguém que partilha de uma mesma ideia absurda do outro lado do Mundo. Isto gera uma sensação de comunidade, que antes deste momento era difícil de alcançar, mas que agora é muito facilitada, e até promovida pelos algoritmos de preferências que as principais redes sociais utilizam. Um terra-planista, existindo, no passado recente, não encontrava facilmente alguém com o mesmo tipo de crença. Hoje, é possível criar comunidades globais sobre falácias que antes apenas recolhiam o apoio de casos isolados.

A internet global permitiu avanços científicos importantes, como a descodificação do genoma humano, por exemplo, que exigiu um trabalho de integração online de dezenas de laboratórios pelo mundo. Mas, ao mesmo tempo, a internet global também expôs a ciência aos ataques dos grupos anti-ciência, possibilitou a criação de comunidades de partilha de falácias, onde teorias de conspiração circulam em circuito fechado, e às quais prestamos pouca atenção porque nos são alheias, porque não nos surgem como sugestão de notícia, ou porque consultamos outro tipo de fontes quando buscamos informação.

O interesse nesta área dos “inimigos da ciência” surge como? Pelo mediatismo atual ou já é anterior?

O interesse surgiu durante um trabalho sobre a prescrição de placebos e a sua relação com a empatia do médico. Nesse trabalho, e na pesquisa bibliográfica que o fundamentou, ficou claro que as atitudes terapêuticas são determinadas por um contexto que não depende apenas da eficácia comprovada de um dado tratamento. Dependem, até certa medida, da expectativa criada em torno de um encontro entre médico e paciente, dos símbolos normalmente associados ao ato de cura, do tempo, da relação entre o médico e o paciente, ou até da evolução natural da doença. Apercebi-me, com este trabalho, do aproveitamento que pode existir por parte de alguns “profissionais de saúde”, sempre disponíveis para apresentar soluções e respostas rápidas, quando a medicina, na sua humildade científica, diz “não existe cura para a sua doença”, ou “não sabemos a causa da sua doença”. Nos momentos em que a Medicina assume as suas fraquezas, há sempre uma pseudo-medicina pronta para entrar em cena e acometer as dúvidas e inquietações de um doente em desespero.

 

Qual a importância de abordar este tema com os estudantes de Medicina?

Os estudantes de Medicina vão estar na linha da frente. Serão, como sempre, embaixadores da ciência, com todas as suas certezas e dúvidas. E têm a responsabilidade de estar preparados para interpretar ciência e traduzi-la para os seus doentes, de uma forma que incuta confiança.

Por isso, os estudantes de Medicina devem ter uma formação científica robusta, mas devem também ser capazes de explicar ciência a quem não teve a mesma formação, sem ostracizar, sem entrincheirar.

Neste debate entre a ciência e a pseudociência, a questão não está na prova ou falta dela, está na crença e no preconceito. Não basta demonstrar evidência, é preciso construir relações de confiança entre médicos e doentes. O médico nunca conseguirá explicar todo o corpo de conhecimento que justifica uma opção terapêutica, nem o doente, por muito instruído que seja, poderá compreender todas as explicações que um médico dá na busca por uma decisão partilhada e informada. A confiança na relação é a chave. Com os nossos alunos de Medicina é isso que tentamos, que sejam comunicadores eficazes e construtores de relações profícuas com os seus doentes.

 

Que papel teve a Escola de Medicina na tua formação profissional e humana?

O meu percurso no curso de Medicina foi atípico. Integrei a primeira turma do Percurso Alternativo em 2011/2012. E a escola médica que encontrei aqui surpreendeu-me. A abordagem curricular das ciências clínicas e básicas, os conteúdos humanísticos transversais, a aposta na comunicação, o fomento da investigação desde fases muito precoces na formação médica são trunfos para a formação dos nossos alunos.

Para mim, foi esta escola que me formou, no seu duplo sentido, que me instruiu e me moldou. E, neste momento, cabe-me também retribuir, com alíquotas de orgulho e responsabilidade, para a formação dos novos médicos desta escola.

 

Texto publicado originalmente na edição n.º8 do HajaSaúde.