Coronavírus: “Uma bola gigante com flores”

11 Maio 2020

Para os pais que estão em teletrabalho a cuidar de crianças pequenas – como é a minha realidade – é normal o sentimento de culpa de não estarmos disponíveis como gostaríamos para os mais pequenos
“Tenho saudades dos meus amigos e da minha professora.” “Os parques estão todos fechados? Os cinemas também? Mas o planeta Terra fechou?” “Estou zangado. Quero ir para a escola sempre, todos os dias.” (Francisco, 4 anos – feitos em isolamento...)

Parte da saúde das crianças está a ser protegida pelas medidas de isolamento. E a saúde mental? Todas as grandes organizações de saúde lançaram orientações para proteger tanto a saúde mental das crianças como dos seus pais, embora sinta que, na sua maioria, são orientações generalistas, focando essencialmente nas crianças em idade escolar e adolescentes, menosprezando de alguma forma as crianças mais pequenas. Cada fase de desenvolvimento reveste-se de particularidades importantes que condicionam a forma como crianças de diferentes idades veem o mundo e lidam com as adversidades, tornando-se fundamental considerar a etapa em que se encontram para uma comunicação eficaz.

A literatura científica mostra-nos que crianças com apenas 2 anos são capazes de se aperceber das diferenças que surgem à sua volta, das suas rotinas alteradas, da ausência de familiares habitualmente presentes. As crianças pequenas, em idade pré-escolar são egocêntricas, entendem que o que se passa à sua volta pode ser relacionado com elas, ou com alguma coisa que tenham feito e usam a lógica associativa, um tipo de pensamento em que dois eventos não relacionados são explicados ou justificados um pelo outro. O egocentrismo e a lógica associativa levam ao “pensamento mágico” – uma teia de ideias entre a fantasia e a lógica que explicam como a criança pode ter causado algum acontecimento. É preciso estar atento para perceber se as crianças se estão a culpar ou a sentir que isto está a acontecer por algo que fizeram.

É importante não só adequar o vocabulário nas explicações, mas também garantir que compreendem a causalidade do que está a acontecer. Mais do que dar explicações intermináveis sobre esta pandemia, é importante ouvirmos os nossos filhos, corrigirmos erros de perceção. A dado momento percebi que o meu filho de 4 anos achava que o coronavírus era uma bola gigante com flores que ia passar por cá e esmagar tudo. Se nos colocarmos na cabeça das crianças pequenas não é difícil entender este conceito, quando o fundo dos telejornais são telas enormes, maiores do que os próprios jornalistas com imagens do coronavírus ampliado milhares de vezes. Nesta idade, as crianças ainda estão a aprender a falar sobre sentimentos, tendo muitas vezes dificuldade em identificá-los e devemos ser nós, os adultos, a dar o exemplo, falarmos dos nossos próprios sentimentos.

Os jogos são ferramentas úteis, por exemplo, o jogo baseado no livro “O monstro das Cores” de Anna Llenas (Plano Nacional de Leitura), em que a cada emoção se atribui uma cor, podendo de forma simples falar sobre o que nos deixa “daquela cor”. Os momentos de refeição são alturas privilegiadas para conversar em família, cada um pode dizer “a cor do seu dia”, começando pelos adultos… A dificuldade na expressão emocional das crianças, por vezes, leva a alterações comportamentais, como irritabilidade, explosões mais frequentes, birras, regressões desenvolvimentais – como deixar de comer ou dormir sozinho, voltar a fazer xixi na cama…. Devemos estar atentos a estas manifestações e tentar perceber a sua causa. Sentir-se-á culpado pelo que está a acontecer? Com medo? Sozinho porque os pais têm pouco tempo? Saudades dos amigos ou de brincar na rua?

Também nós pais estamos a passar momentos difíceis, de muita ansiedade, em que nem sempre a paciência está nos seus melhores dias. Mas devemos trazer sempre connosco o pensamento de que nós somos os adultos da família, nós somos o seu principal exemplo. Ainda para mais temos uma arma que a maioria deles ainda não possuem – a emoção oculta. Conseguimos deliberadamente ocultar emoções através da gestão da expressão facial. Embora falar das emoções seja importante, devemos tentar disfarçar estados de ansiedade para proteger o contágio.

Para que a saúde mental das crianças pequenas se mantenha é indispensável que conservemos a nossa própria saúde mental íntegra. Para os pais que estão em teletrabalho a cuidar de crianças pequenas – como é a minha realidade – é normal o sentimento de culpa de não estarmos disponíveis como gostaríamos para os mais pequenos, sentirmos que veem mais televisão do que deveriam, ou que os dias não têm horas suficientes para tudo o que precisamos de fazer. E para os pais que, por estarem na linha da frente pouco tempo têm para os filhos ou que para os protegerem os deixaram com outros familiares, lembrem-se que isto não vai durar para sempre e fazemos o melhor que conseguimos, por eles e por nós.

 

Catarina Amaral

Psiquiatra da Infância e da Adolescência

Alumni Medicina, Universidade do Minho

 

Artigo originalmente publicado no Jornal Expresso a 14 de abril de 2020